sábado, 12 de setembro de 2009

O que será que será?

By ~hotburrito2 on DeviantArt

Vê...
Olha pela varanda.
Daqui eles são pequenos,
Daqui eles parecem longe.
Parecem?
Mesmo a um palmo de mim,
Pra mim...
Eles ainda estariam longe.

Mas vê.
Olha...
Aquele casal.
Ele sorri,
Ela franze o cenho,
Mas força um sorriso.
Sorrisos distantes.
Mesmo quando a boca encosta os sorrisos estão distantes.
Eles estão distantes,
Tanto quanto eu, que olho, do alto, de longe, despercebida.
É como se fosse um quadro.
Eu olho de longe e não consigo encostar na casa nela pintada.
Mas de perto,
Mesmo que encoste eu não toco a casa.
Eu toco a tinta.
A casa ainda está longe.
Em outro plano.

Não é só o casal.
Aquela senhora está mais longe ainda.
Não tem o sorriso,
Não tem o cenho franzido,
Não tem expressão.
Ela está ali?
Ela está mais longe.
Nem a interpretação da pintura eu consigo fazer.
Me interessa mais.
Ela tem o sabor do neutro.
E eu não sei o que é isso.
Olha..
É belíssimo.
O olhar foca onde não consigo ver.
É um olhar morto.
E do morto eu não conheço.
E do morto ela também não deve conhecer.
Mas vê e responde com o não sentido de não ver.
Vê o “triangulo incompreensível” e de nada dele pode extrair.
Uma lágrima agora estragaria tudo.
Estragaria o neutro, o insosso daquele olhar perdido de quem não procura sentido porque o sentido não há.
Ela é bela.
Quanto mais distante, mais quero me aproximar.
Tenho medo.
Eu sei que mesmo ali ao lado dela não verei o que ela vê.
Sequer a verei de perto, ela já é a casa inalcançável...
O que tem na casa e a vista de lá nunca será minha.
E se eu chegar perto...
Eu serei o inferno dela.
Vou arrancar dela a beleza do neutro porque verá em mim o desespero dos sentimentos.
O cenho franzido, a lágrima, o sorriso.
A angústia me tira a possibilidade de ver o que não faz sentido e aceitá-lo como tal.

Como ela pode?

Eu vejo aquela criança.
Você vê?
Uma explosão ambulante do que é mutante.
Intenso.
Vê tudo, fantasia tudo, perde tudo.

Mas ela não.
Ela vê,
Ela aceita,
Ela perde,
Mas não sabe o que perdeu.
E simplesmente não importa.

Como ela pode?
O que ela vê?
Se ela sentisse meu olhar como reagiria?
Ela voltaria a angústia?

Espera...
Será que ela vê algo?
O olhar é morto.
Eu não sei.

Eu me distancio do real cada vez que tento me aproximar.

E se ela não vê?
E se todas as possibilidades me levam ao mais distante.

Eu, mais uma vez, estou a não aceitar o que não faz sentido.
E, pra mim, ela vê a morte.
Mas o inferno é o neutro. Até no sentir.


As vezes você fica triste.
E é só.
Aquele triste que não é suficiente para ser inspirador..
Nada de beleza melancólica.
Só a sólida e permanente tristeza...
Tristeza.
Pura, simples e sozinha.
Aquela que não se escreve sobre, só se tenta.
E aquela.
Sim, ela.
A companhia da sua solidão.
Presente, constante.
Não se fala, não se exige, só se amargura.
Aquela que não cresce, se instala.
Sem aviso. Só vazio.
Sem título. Sem figura.
Só fundo.
Peça integrante do nada.
Ela.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O passatempo da sua viagem.

Um dia alguém me disse:

“Você não precisa mendigar pra ele gostar de você.”

Eu ri.
Achei que era bobeira.
Mas de uns tempos pra cá eu vi...

Senhoras e senhores passageiros da vida,
Desculpe interromper o silêncio da sua viagem,
Mas eu vim lhes trazer essa novidade.
Prestem bem atenção.
Eu podia estar matando,
Eu podia estar roubando,
Mas eu só estou aqui pedindo um olhar,
Um carinho,
Um abraço,
Pra eu poder alimentar a criancinha que está... Aqui na sua frente mesmo,
Pedindo.

Eu mendigo por afeto.
Faço malabares,
Peço insistentemente,
Peço com olhar mendigo de quem tem fome...
Por um pouco,
Muito pouco afeto.

Qualquer trocado basta.

E do mesmo jeito que quem mendiga quase nunca ganha.
Eu não ganho.
Fico de pedinte que é o que eu sou,
Que é o que incomoda,
Que é o que muitas vezes assusta.
Porque sempre desconfiamos da verdadeira razão do pedinte.
No meu caso é com razão.
Com isso eu alimento o vício.
Maldito vício de paixão.
Maldito vício de intensidade.

Qualquer trocado de afeto alimenta em mim,
Muitas vezes,
A sentimento louco de entrega.
Eu me jogo ao que não sei.
E me dou...
Mas quem quer o mendigo?
Quem quer aquele que implora?
Sem coisas loucas ditas belas?
Orgulho, honra, dignidade.

Ninguém quer o feio.
Ninguém quer a falta de estética.


“Por enquanto o primeiro prazer tímido que estou tendo é o de constatar que perdi o medo do feio. E essa perda é de tal bondade. É uma doçura.”
[C.L - A paixão segundo G.H]

Doçura é uma palavra engraçada.
Rrsrsrsr.

sábado, 22 de agosto de 2009

.

by *thicktheo on DeviantArt

Meu eu se comprime e cabe num cubo de 4cm.
Acredite.
Envergonhado e com medo o Eu só precisa de 4cm.
E dói. De tanto que se comprime.
Dói o Eu querer ser tão pouco.
Contudo,
ele é.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Achei...

by `GeorgeHarrison on DeviantArt

Uma vez já achei que eu era cor.

Era roxo,
vibrante,
porém fosco e integro.

Uma outra achei que era som.
Som musicalizado ainda por cima.

Onde já se viu tanta ousadia?

Era feita por um piano,
suave, de leve,
calmo.

Já achei que era luz,

Era fraca,
azulada,

Diminuia devagar...
E chegando ao quase não existir...

Ascendia e acendia nuns tons alaranjados de quem precisa se igualar ao Sol.
Eu queria ser sol.

Mas nunca fui.
Sempre achei que fui lua.
É...
acho que já fui lua.

Então...
Uma vez eu achei que era lua.

Eu me escondia,
mas aparecia curiosa como quem precisa saber o que vai acontecer no próximo capítulo.

Uma vez já achei que era criança,

E acabei sendo um sorriso mais livre.
Eu já achei que era um sorriso.
Do sorriso,
facilmente fui beijo.

Do beijo,
fatalmente fui lágrima.

Uma vez eu achei que era lágrima.

E acabei sendo uma criança mais livre.
Uma vez eu achei que era jovem

E que sendo jovem estava longe da morte.
Acho que uma vez eu fui imortal.

Achei que era vida.

Da vida eu fui ao inseto,
do inseto eu fui à flor.

Da flor eu fui ao pólen,
do pólen eu fui ao vento.

Eu já achei que era vento.

E que vinha do mar.
De dia eu vinha do mar,
ver a terra.

Dá saudades, sabe?
De noite eu caminhava pro mar.
Pra solidão.
Dá mais saudades ainda, sabia?
Eu já achei que era o quase vazio,
Só não era vazio porque achava que faltava algo.
E achar que falta já preenche espaço.
Nunca achei que era completa.
Não consigo nem pensar em achar que posso ser completa.
Loucura isso.
Hmmm....
Já achei que era louca.
Já achei que era desespero.
Mas quando percebi que era desespero porque queria ser normal...
Eu achei que queria ser louca.
Me permeti.
E eu achei que era louca.

Aí eu acabei sendo um sorriso mais livre.
Eu achei que era sorriso.
Do sorriso,
facilmente virei beijo.

Do beijo,
fatalmente virei lágrima.

Na lágrima, eu voltei ao quase vazio.
Eu achei que era velha e que a morte estava logo ali.

Eu achei que era a morte.

E que a morte de mim era sozinha.
Eu não tinha mais o tom,
Nem o piano,
Nem a cor,
Nem as estrelas,
Nem a terra,
Nem as asas,

Nem o beijo.
Eu era gente.
E sendo gente eu senti que eu não tinha nada.

Eu senti que eu era a minha tristeza mais aprisionada vindo à tona com o ódio
De quem por muito é esquecida,
De quem por muitas vezes foi trocada.
E sendo gente eu vi que eu não queria ser gente desde o inicio.
E eu não fui.
Eu não fui gente.
Eu fui sonho.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Boa noite, cinderela.

Eu não estava sendo racional e nem queria ser.
Ainda não quero.

Vai embora racionalidade...
Não te quero em mim.
Não te quero aqui, não te quero agora.


Quero escrever o desconexo,

mas o desconexo burro.
Burro, errado, extremamente incorreto, imperfeito, burro.


E que além da minha burrice eu quero transparecer a loucura.

Não a loucura bela de
homo demens, artístico, poético.
Eu quero transparecer o patólogico, a carne viva, o vômito, o grito, a paralizia, o desconforto.
O seu desconforto.


Eu quero, pois o que aparece é o que eu sou.
É parte finita do infinito que me forma.
É o fenômeno em mim que pode ser observado como fenômeno em si.

Nada basta pra mim.
Eu quero o que eu não vejo,

eu quero o que eu não sei,

eu quero o que eu não sinto.
Exceto pela morte.
Eu dispenso a morte.
Afasta de mim esse cálice.
Eu me nego. Eu a nego.

Se ao menos eu pudesse saber que o infinito que me forma é o realmente o infinito...

Puta merda... De novo a realidade?

Por que tudo tem q ter a importância do real se nele só existe a desvantagem de ser finito enquanto consciência?


Pessoa,

Elvis morreu de verdade...

Bebeu como um filho da puta e morreu.

Branca de Neve morreu com uma maçã,
gostosa por sinal.

A diferença é que a Branca de Neve levantou com um beijo
e Elvis foi comido por vermes.


Eu nego o real,
o finito,
a morte,
a verdade.

Eu quero a dor da dúvida e a anestesia do que é fantástico.


"Quando eu crescer, eu quero ser infinita
"

Ei,
pessoa...

caso você queira saber...

Eu cheguei em casa...
Vim à pé, avariada, mas cheguei.
Caí em mim e voltei ao tipo 4.

Eu mudei muito,
mas a relação sempre existiu.

E por ser relação há de estar relacionada.
rsrsrsrs.


Vou dormir.

Espero só acordar com um beijo.
Boa noite.

[Ainda sem fazer sentido, porque estou a escrever o que sai... Sem ordem e sem a obrigatoriedade de fazer relações. Simplesmente sai. Feio como é.]

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Avariada.

By ~azura-lizzy on deviantArt

Engraçado...

O ultimo post parece uma previa do sentimento louco de agora.
Como eu pude?

Estou voltando à pé para casa... Avariada,
pois sobrou o que sobra dos corações abandonados.

A diferença é que ao invés do amor... eu tive uma compulsão neurótica.
Investi no objeto... Gostei, gozei, gozei, gozei, perdi.

Me encontro agora avariada...

Pessoa, olha:

"A pessoa por quem a gente se apaixona sempre é uma invenção. Dificil saber onde começa e onde acaba a representação de um sentimento. Hoje eu chorei muito e uma hora eu vim me ver chorando (no espelho). Eu estava sofrendo de verdade e ao mesmo tempo eu era espectadora da representação do meu próprio sofrimento"

Outra coisa engraçada...

Nessa caída a 200km/h eu notei como eu estava longe da realidade...
Talvez porque eu nunca tenha me importado muito pra realidade.
Talvez porque eu nunca soube o que era a realidade.
Talvez porque eu saiba que eu nunca vou saber o que é a realidade.

Pois então...

Partindo do conceito senso comum... eu estava bem longe dela.
Substitui o real pela fantasia.
Inventei um objeto.
Inventei um sentimento.
Inventei uma estória.
E o objeto, o sentimento e a estória...
não se fez.

Mais uma vez... a avaria.

Eu preciso voltar ao Eu,
Mas não sei o caminho.
Eu só vejo o Eu no outro.
E o outro não quer me dar o Eu.

Avariada. O estrago em si é porque falta uma parte.
Uma parte? Duas partes. Duas partes?
Partes...
Posso ser quase o nada agora.
O que sei de mim é só fantasia.
Você não me vê,
pois o que resta... está dentro.
E o dentro não existe do lado de fora.

Estragada.

Mas,
sabe o que eu queria?
Não queria deixar a fantasia...
Queria que alguém fantasiasse, como eu, um amor louco, incongruente, inexplicável, dolorido...
Inventado
e verdadeiro em toda a sua representação para si...
E que esse amor louco...
fosse meu.

[Fez sentido na minha loucura.]

quarta-feira, 17 de junho de 2009

.

"Não era amor. Não, não era amor. Era... Era uma sorte, uma travessura, uma sacanagem, eram dois celulares desligados. Não, não era amor. Não. Era inverno, era sem medo. Não... Não era amor. Era melhor."

...


"O fundamental a gente nunca fala."

Talvez eu nunca irei falar. Talvez...

by ~
jstyle23 on DeviantArt

terça-feira, 9 de junho de 2009

Humano desabafo



Não faço o que faço pra ter algo em troca. Apenas agrado pela beleza de fazer bem para quem sinceramente amo. Mas depois de tanto tempo percebendo que benevolência requer mais esforço e sofrimento do que se espera, então começo a questionar se ao final, eu realmente não gostaria de uma prova de agradecimento.
Assumir isso é revoltante. Mostra que sou bem menos do que sempre fiz de tudo para ser. Mostra que aquele modelo perfeito, sem risco de reclamar em viver em função das pessoas, era quebradiço. Aquela minha vontade de poder ser admirável, alguém que se sente feliz sem palavras e gestos de reciprocidade, a moldura perfeita do altruísmo, derreteu ao se deparar com o sol amargo da falta.
Olhei-me no espelho e o que vi não foi a obra prima que incansavelmente tentava entalhar. O que vi foi humano: feio e imperfeito. Foi a prova de que falhei. Tentei de tudo para atestar que era possível. Que alguém poderia ser tão agudamente admirável. No entanto, decepcionei.
Decepção.
Carrasco de mim. Palavra maldita que me traz mais melancolia e amargura que outra muito mais temível: morte. Esta que representa o fim daquilo que sempre acreditei.
Morte de mim.
De um eu que se foi no momento que assumiu sua fraqueza. No momento que sentiu que sofria e não queria mais sofrer. Quando notou que quanto mais perto da estátua milimetricamente projetada de perfeição altruística chegava, mais infeliz se tornava. Quanto mais amava e demonstrava, menos recebia.
Notei que tenho desejos. Abri o dicionário e descobri a palavra querer. Ela se apossou de mim como veneno. Subiu a minha cabeça e escureceu a tudo, clareando somente a idéia de que quero.
Quero de volta.
Não como um preço a ser pago pelos meus esforços a eles. Mas como o símbolo de que esses esforços não foram em vão. O símbolo de que parte do amor que tenho, um dia pode ser me dado também de volta.
Percebi que sou pouco. Risível. Pequena demais para não almejar atenção, para não querer presentes fúteis de amor, ou provas ínfimas de que sou alguém verdadeiramente amada.
Não entendo mais o que as pessoas querem dizer em me chamar de especial. Quando seus gestos esquecem de mim. Não, não está subentendido. Subentendido não é mais suficiente. Gestos se tornaram de repente tão desejados quanto água para quem tem sede. Estou sedenta de retribuição palpável, e nada me faz sentir pior e menor que essa admissão. O que escrevo é como sentença inescapável.
Não se trata, no entanto, de dar para receber. Mesquinharia. Não é cobrar com juros justos. O que é: é necessidade de reconhecimento retribuído.
Divago.
Pensando que as pessoas têm a tendência de dar mais atenção e símbolos de apreço àqueles que lhes dão pouco disso. Costumam valorizar os misteriosos desafios muitas vezes não tão especiais. E assim, deixam de lado e despendem menos esforços àqueles já garantidos. Àqueles que esses têm certeza de que lhes são caros e lhes dão de tudo.
E no fundo, tenho medo. Medo de que a retribuição não venha pelo motivo anterior, mas pelo simples fato de não ser tão merecedora ou amada como sei que amo. Terror de que a verdade seja mais dura que as especulações; seja mais árdua em aceitação.
E por não receber, duvido. Questiono, sem querer, se aqueles para quem me entrego algum dia me quiseram bem.
Não me sinto especial.
Não me sinto parte.
Sinto carência patética daquela que quer ser importante e não enganada por afagos compensatórios de mérito.
Quero ter.
Sentir.
E não ouvir a palavra distante e dúbia. Palavras esvaecem, perecem com facilidade quando pronunciadas sem preocupação.
Quero a beleza palpável dos gestos! Quero sentir o cheiro, tocar e apertar com força a textura. Quero o gosto e não o som inalcançável da palavra que, quando dita, é feita com descaso.

sábado, 6 de junho de 2009

O Sonho de um Homem Ridículo

by ~Photography-B on DeviantArt


“A princípio fazia-me sofrer muito a idéia de parecer ridículo. Não o parecê-lo, mas o sê-lo. Eu sempre fui ridículo, e eu já o sabia talvez desde que nasci. Talvez já aos sete anos eu me apercebesse perfeitamente de que era ridículo. Depois fui para a escola, e a seguir para a Universidade, mas... Quanto mais aprendia, mais obrigado me via a reconhecer a minha condição de criatura ridícula. De maneira que todos os meus estudos universitários não tinham outro objetivo senão o demonstrarem-me e explicarem-me a mim próprio, nas minhas meditações, que eu era um ser ridículo. E, na vida, acontecia-me o mesmo com a ciência. Todo o ano aumentava e se fortalecia em mim o conhecimento da minha condição ridícula, em todos os sentidos. Toda a gente se ria de mim. Mas ninguém sabia, nem suspeitava sequer, que, se existia no mundo um homem que soubesse melhor do que todos eles como eu era ridículo, esse homem era eu próprio. E era precisamente isso o que mais me enraivecia: que não soubessem. Mas disso tinha eu a culpa. Fui sempre tão orgulhoso que por nada desse mundo o teria confessado a ninguém. E esse orgulho ia crescendo também em mim com os anos, e se eu me tivesse permitido confessar a alguém, fosse a quem fosse, espontaneamente, que era um homem ridículo, teria imediatamente metido um tiro na cabeça, na tarde do mesmo dia. Oh, quanto me fez sofrer, na minha mocidade, o medo de não poder talvez conter-me e de dizê-lo de repente, eu próprio, aos meus companheiros! Mas, com o andar do tempo, quando me tornei um rapazote e, apesar de continuar reconhecendo cada vez melhor todos os anos essa terrível condição minha, fui-me sentindo cada vez mais tranqüilo... Não sei por quê... Precisamente por alguma razão que ainda hoje ignoro. Talvez por, nessa altura, se ter introduzido na minha alma o receio perante determinado conhecimento que humanamente era mais elevado que o meu eu... E que foi a convicção adquirida de que tudo neste mundo é, afinal, uno.”


O Sonho de um Homem Ridículo - Fiódor Dostoievski
http://www.4shared.com/file/110325285/7f89cfd8/7331832-Dostoievski-O-Sonho-de-Um-Homem-Ridiculo.html


Eu não queria escrever nada. Mas acabei querendo.

...

Ás vezes, eu penso que se eu pegasse trechos de cada livro do Dostoievski poderia ser possível explicar meu eu. Mesmo que não faça sentido. Uma frase. Um parágrafo. Eu vejo o meu ser refletido nas palavras do outro.

Engraçado... Eu achava que se alguém pudesse me definir de maneira cristalizada, entraria em um desespero tão profundo que não valeria mais a pena eu ser. Tanto que eu sempre preferi me defender com o argumento que eu estou, não sou.

Mas quando ele fala: “Eu sou um homem mal. Eu sou um homem ridículo. Eu sou um homem covarde.” Eu sinto uma identificação tão forte, que é como se eu falasse. Eu viro o personagem. Eu sinto a vergonha e a dor da auto-afirmação, com um misto de satisfação e orgulho por sê-lo.

Talvez não seja tão desesperador ser... Isso me lembra o “Homem do Subsolo”, ao mencionar como ele seria mais feliz se ele pudesse se afirmar como algo, mesmo que seja preguiçoso. Ele levaria esse titulo com o orgulho de SER. E essa afirmação o cegaria, tirando o desespero de pensar sobre não ser.

Eu estou confusa. Deve dar pra perceber. Vai ver... Eu SOU confusa. Vai ver... eu SOU um homem ridículo, no maior estilo dostoieviskiano de existência. Onde o que predomina é a dança caleidoscópica de sentimentos podres. De sentimentos merdas... Que destroem... Que matam.... Que nos transformam na loucura sobre a razão pura. Tudo que não há de ‘belo e sublime’. Toda podridão que só se revela quando tudo arde. Quando precisamos que arda. Quando é necessária a dor...

“... a dor é beleza, pois só a dor tem sentido.” (F.D)


Desabafo de merda. Não SOU prolixa, nem poética.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Verdadeiramente Imoral (C.L)

by ~Cl3tuS on DeviantArt

Eu quero matar a alma,
Eu quero matar o Eu.
Nadificar.
"Imanescer".
Não-ser.
Eu quero que o emocional seja apenas: cérebro-emocional.
Que a dor de 'amor',
a dor do desejo,
se alivie por doses de aspirina e paracetamol.
Que a dor de alma,
se alivie em fortes doses de morfina.
O problema está no cerébro.
O problema está no corpo.
E o cerébro-emocinal está confuso.
A discussão sobre o ser e o nada não me basta.
A discussão sobre o ser e o nada banhada em malte de cevada, lúpulo, água e etanol me não basta.
O Ser não me basta,
O Nada não me basta.
Não ME basta?
Me?
Eu?
Eu quero matar o Eu,
quero matar a alma.

Talvez assim...
O 'it' que sobrar de mim seja Deus...
Mesmo que Eu morra.



O perfeccionismo agudo batia todo começo de manhã na janela imatura em forma de menina. Ele entrava como um raio rotineiro e se emoldurava sob a cama como a crença cristalizada; a regra inquestionável de algo divino. Parecia que então, um ideal utópico regia sua vida, da mesma maneira que o sol rege tudo.

E o tudo não questiona o poder irrefutável de seu sol, assim como ela nunca realmente questionou aquilo que sempre acreditou ser parte constituinte de si. A bússola domada apontava para o norte, onde esta se encontrava com o disfarce do contentamento. Alguém que não sabe onde está, mas que tem a segurança que seguiu para onde a seta direcionadora do quadro emoldurado sob a cama apontava.

Até que a chuva de repente pareceu uma alternativa. A tempestade surgiu para trazer consigo a confusão que geralmente se propõe a trazer. Mas a confusão era inusitadamente confortadora. Ela trazia o gosto exótico da quebra de algo antes inimaginável. Apareceu como a consciência alarmante, como a liberdade antes nem mesmo considerada. Afinal, como se libertar de algo que não sabemos que nos aprisiona?

Porém, nada era mais prazeroso do que ver a tempestade e a confusão como racionalidade repentina. Elas trouxeram o vislumbre de luz para a cegueira inconcebida da menina. O sacrifício de cada dia, no fim, era mantido pelo carrasco de seu próprio espelho. Cada ação forçosamente dolorosa era imposta por regras vindas de um lugar irreal, vindas de um quadro mantido por ninguém menos que si mesma.

A percepção que veio com a chuva lhe trouxe nada mais do que a concepção de que tudo lhe era possível. Trouxe o alivio de alguém que se liberta de correntes invisíveis e percebe que existe muito mais para se ver do que sua limitada cela lhe permitia. Abrir-se para as possibilidades puras, para a vida sem molduras, além das que lhe são verdadeiras e não impostas.

De repente voar, tocar o sol, sobrepô-lo, não mais era impossível.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Spinning Edge

by ~Timisoara on DeviantArt

Eu sinto.
Isso é imperativo.
O pensamento me abate numa lógica inventada para a fuga de um desamparo inescapável.

Eu sei que ele está lá,
mas não sei porque está lá.

O que vem além de mim?

Eu sinto o abandono da minha própria razão ao pensar no "para além".

Eu sinto.

E quero sentir,

pois o não-sentir me desespera.
Mas a imagem dele me mostra o como a minha obstinação por um sentido...
Não faz sentido sequer.

A razão me parece meio doentia.
O certo e o errado me parece incongruente.

O sentimento... Ah! O sentimento...

Absurdo.
Simples e pura aberração.

Porém, incrívelmente fantástico na sua não-lógica.

Aceitar essa condição humana de ter uma barreira intransponível,
essa liberdade em uma cerca,
essa impossibilidade de se ver completo,

de se realizar em toda a sua plenitude,
é...
é......


Puta que pariu!


hahahah.


terça-feira, 28 de abril de 2009

Sentir.


Essa é palavra da minha vida. Não existe nada além dela, tudo se sintetiza nela e nela tudo se baseia. Porém, ouvi dizer que as pessoas na contemporaneidade têm medo... Têm medo e fogem assustadas do que ela pode significar. No entanto eu sou ela. É difícil pra mim traçar uma linha que nos separe. Cada retalho, por ínfimo que seja, da colcha da minha história respira e gira alegre e tristemente em torno do sentir.
Nisso consiste a minha maior qualidade e o meu maior defeito. Sentir foi pra mim o que me trouxe felicidade e amargura... Foi o que me iluminou feito o sol e me carregou de trevas como a sombra que encobre a luz num derradeiro eclipse.
Não escolhi esse caminho; não desejei que meu ser se inundasse de sentimentos e fosse constituído milimetricamente por eles. Calafrios me tomam por inteiro quando tomo consciência de que sou montada peça por peça por momentos e lembranças, que por mais que corram não conseguem fugir ou se esconder da fatalidade que é essa palavra. Ela age como uma sentença. Um fardo a ser carregado. Porque quem sente, sabe que não existe pior pesadelo. Sabe que os momentos que passam são marcados com tanta dor e sofrimento que as vezes imploramos pra não mais existirem. Sabe que o escuro parece ser sempre mais veloz e sempre tem mais vez. Ele aparece sorrateiramente e toma conta de tudo antes mesmo de um súbito piscar de olhos.
Se permitir sentir é se arriscar. É sofrer e chorar muito mais que sorrir... Gostaria de ser clichê e dizer que o risco vale a pena, afinal se você se fecha pro mundo, você não chora, mas também não tem a chance verdadeira de sorrir sinceramente. Mas quem sou eu pra afirmar que é mesmo assim tão bom sentir? Quem sou eu pra garantir a luz no fim do túnel, o otimismo, o valer a pena? Não quero iludir ninguém, nem dar falsas esperanças. O que posso garantir é que esse medo não é completamente infundado. Ele foi criado; surgiu da certeza de que não há perigo maior que a vulnerabilidade. Entretanto no final, todos dizem sentir... e tolos, sabem que mentem. Todos dizem querer, mas se assustam e correm como crianças. É incrível quantas armaduras existem. Tantos castelos envoltos por penhascos e fossos, quantos muros... E eu, mesmo sendo o próprio sentir, não sou diferente. Eu também corro, me escondo... Porém é de mim mesmo. Meu medo vem do espelho...

domingo, 26 de abril de 2009

Cores

by ~cloning on DeviantArt

De repente me vi buscando por elas.
Busco, também, o não-linear, as estampas, o mutável.
Engraçado... não vi meus olhos mudarem.
O preto, o branco, o cinza, o reto, o rígido, o regrado: não mais sou eu.
A imagem no espelho não sou eu.
Sou cores.
Admito minha inconstância.
Não quero aprisioná-la numa regra monocromática, em um planejamento de segurança.
É a absoluta urgência do agora.
"Agora é um instante. Você sente? Eu sinto."
Sinto seu perfume, sua textura, sua temperatura...
Sinto as cores refletidas, no meu agora, por mim.
E varia.
De novo, de novo... Ou não.
Inconstância na constância do inconstante.
Me lanço, apesar do medo, às minhas "mutações caleidoscópicas".
Não quero antecipar.
Quero, agora, ver o mundo sem restrições.
Ver, absorver, complexar, refletir.
Quero me apaixonar pelo novo, pelo livre, pelo passível de mudança.

Supreenda-me.