sábado, 10 de outubro de 2009

Ela, nela.

by ~kalani1980on DeviantArt

Ela passa pelo corredor.
Vê cada quarto.
Pára.
Dentro de um quarto...
ela se vê:

Rançoso dia de chuva.
O dia se arrasta como gosma.
A mesma gosma que a prende no quarto.
Sim,
a porta está aberta,
mas ela está presa no quarto.
Ressoa como um lamento grotesco:

“Lime Green, lime Green and tangerine.”
“Are the sickly sweet colours of the devil in my dreams”

Ao ver, acha que é ela que se prende a gosma.
Ela se prende do ranço do dia,
como quem tem o desgosto da constante lembrança de que só a morte é certa.
Ela se prende.
Por medo.
Sente-se o cheiro forte do apavoramento.
Imobilizada,

se vê olhar pro teto.
Um olhar de viciada.
Quantos vícios foram para que se esquecesse?
Quantas marcas foram feitas nesse rosto para que se lembrasse?
Ela não esquece,
ela não se lembra.
É o que é no estar de se estar.
Ela sabe que está no que é.
Mas o que é?
Se prende na esperança fria,
quase que morta,
como ela.
A esperança é a gosma.
A esperança é a gosma inescapável de crer que se pode explicar o que é.
Mas o que é?
Ela só sabe estar.
Ela está.
Ela é o estar?
Ela não é.
Nunca foi.
Não importa as marcas no rosto.
Elas só estão.
O rosto some um dia junto com as marcas.
O quarto e a gosma ficam.
Fica para um outro “estar” qualquer que tem a mesma esperança fria.

Pelo medo do nada,
pelo medo do ser,
Ela representa no estar um “ser” ilusório para enganar a quem a vê fora do quarto.
Ela "é" os seus vícios,
as suas marcas.
A intensidade que se produz facilita a representação.
Quanto mais dói,
mas real parece ser.
Parece ser…


Ela se prende.
Sim,
ela se prende.
Ela se vê,
de fora do quarto…
Presa.
Ela está fora.
Se vê.
Chora.
Parece ser real essa dor de se ver tão horrível,

tão desprezível...
quanto café frio.
Representação de ser.
Isso é o que é estar.
Até que não esteja mais.

Ela se apóia nos arcos da porta.
Sorri.
Linda, a gosma.
Lindo, o som.
Linda, a mulher.
Linda, a falsa tristeza.
Lindo, o desespero incrédulo.
Isso é o que é.
Entra,
senta na cama.
Entra em si.
E,

repete,
baixo,
como um suspiro de amor:

“Lime Green, lime Green and tangerine.”
“Are the sickly sweet colours of the devil in my dreams”

Um comentário:

Aline Gomes disse...

Quem lê um, leu todos.